segunda-feira, 23 de maio de 2016

Nossa Linda Juventude

Sentado no meu carro, voltei no tempo quando tocou aquela canção. No meio de um desagradável e habitual congestionamento, lá estava eu procurando alguma coisa no rádio pra me distrair, e de repente a introdução da música soou familiar aos meus ouvidos. Automaticamente comecei a cantar com o Flávio Venturini: “Zabelê, Zumbi, Besouro, vespa fabricando mel, guarda o teu tesouro, jóia marrom, raça como nossa cor. Nossa linda juventude, página de um livro bom...”. E, enquanto eu cantava, minha alma começou a voar me levando ao passado. Que loucura! Como pode uma canção ter o poder de nos transportar? Sim, mas não era uma canção qualquer. Era uma música de um tempo que não se esquece, um tempo que marca a vida da gente.

Ah, “nossa linda juventude, página de um livro bom!” E bota bom nisso! Nunca pensei que a ingenuidade pudesse ter as suas vantagens, mas naquele tempo, no qual éramos ingênuos, a vida tinha um sabor diferente, um tempero que nunca mais provei, do qual o meu coração tem saudade. Vivíamos com a certeza de que o mundo seria outro, simplesmente porque (modéstia à parte) nós iríamos transformá-lo. É lindo ver jovens com a convicção de que são transformadores do seu tempo, coisa rara hoje em dia. Mas nós éramos assim. É claro que não mudamos o mundo, pelo contrário, o mundo nos mudou. Pra ser justo comigo e os contemporâneos daquele tempo, acho até que deixamos no mundo algumas marcas, nada de tão relevante pra a humanidade, mas de um significado enorme pra nós.

Ah, “nossa linda juventude...” quantos amores se perderam no passado. Quantos projetos ficaram no papel. Quanto rascunho sem arte-final. Quantas promessas fizemos pra nós mesmos e que o tempo se incumbiu de extinguir a chama da certeza. Quanta gente passou por nossa história. Por onde andam aqueles que chamávamos de amigos, mas que saíram da nossa vida sorrateiramente sem que percebêssemos – na verdade não sei dizer quem saiu da vida de quem. Onde estão aqueles que no tempo passado eram tão íntimos e hoje tão estranhos. Num exercício de memória tentei me lembrar de algumas faces, porém muitas já estavam bem apagadas e não consegui mais ver os rostos que outrora eram tão familiares. É engraçado como o tempo corrói as relações e faz a gente mudar de opinião. Certezas que se desmancham como se fossem torrões de terra vermelha, que se desfazem quando pressionados.

O carro de trás buzinou e eu voltei pra terra, direto para o congestionamento. “Ainda bem que o trânsito começou a fluir” – pensei. Ah, “nossa linda juventude, página de um livro bom!” Página virada, mas que, uma vez escrita, não pode ser apagada.

sábado, 21 de maio de 2016

Tu Sabe Vuá?

Ele gostava mesmo é de jogar bolinha de gude. Mira certeira, habilidade acima da média, que despertava a admiração e respeito da garotada. Cresceu, deixou de ser criança – adolescência complicada e violenta no morro. Não podia nem mesmo ser chamado de jovem, e já estava a serviço do tráfico. Começou como fogueteiro, mas aquela mira certeira o conduziu a postos mais elevados. E foi num tiroteio com a polícia que ele provou que era hábil não só com as bolinhas, quando acertou a cabeça do sargento que tombou no meio da favela. A ira tomou conta do batalhão. Indignados, invadiram a comunidade, com cães e como cães, procurando o autor da proeza. Não demorou muito pra achar o menino que não era mais menino. Então, lá em cima, do alto da pedreira, com o gosto da vingança na boca, o tenente perguntou: “Tu sabe vuá?”. Foram as últimas palavras que o menino ouviu na vida.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

João e Maria

Dentre as coisas que não se explicam, aplica-se as coisas do coração.

Era apenas João, igual a tantos “Joões”. De pé descalço jogava bola, subia em árvores, e nos dias de chuva corria no meio da enxurrada. Vivia a vida sem pensar nela. Vivia por prazer.

Do outro lado, era Maria. Maria do “Seu Quim”, Maria de Jesus. Olhos azuis, cabelos longos e loiros, e um jeito tão puro que fazia lembrar a santinha do altar da matriz. Sonhadora por excelência, sonhava com príncipes e castelos, enquanto ajudava o pai no balcão do armazém.

No primário se conheceram, os olhares cruzavam-se e fugiam um do outro. No ginásio aproximaram-se. Os olhares cruzavam-se, porém não queriam mais fugir. Então, andavam juntos, falavam pouco, beijavam-se muito. Para Maria: o príncipe dos seus sonhos. Para João: o prazer da vida vivida.

Agora falavam muito, beijavam-se pouco, discutiam sempre. Os olhos dela não acreditavam nos olhos dele que desconfiavam da maneira furtiva dela olhar. Conheceram a dor. Não andavam mais juntos, não beijavam-se mais. Para Maria: o castelo que desmoronou. Para João: o fim do prazer.

Para não pensar nela, João pensou na vida. Escondeu-se atrás dos livros, foi morar na capital. Conheceu muitas mulheres, mas nenhuma era Maria. Detrás do balcão do armazém, Maria saiu. Buscou refúgio na casa da tia e não achou graça nos homens que conheceu.

Por essas e outras que acontecem na vida – dessas coisas que não se explicam – outro dia se encontraram. Os olhares se cruzaram e fugiram um do outro como nos tempos do primário. E no dia seguinte, na pracinha da matriz, novamente cruzaram-se os olhares. E como nos tempos do ginásio não quiseram mais fugir.

sábado, 3 de outubro de 2015

Dona de Mim

Olhar de intenso brilho,
trilho que me leva ao paraíso.
Riso que ilumina o meu rosto.
Gosto do mosto, embriaguez de amor.
A flor que vi no sonho,
da cor do lírio, do delírio exposto
nos versos que componho,
nos quais me exponho,
pois deixei de ser senhor.

Súdito de uma alma rara.
Bem mais que carnal estética,
poética beleza do ser.
Me fez ser quem eu não era,
transformou meu triste fim,
me rendi,
me entreguei,
se tornou dona de mim.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Ausência

Sem você não vale a pena.
Pois, pena sinto de mim.
Cercado de olhos por todos os lados,
sem você, me sinto só.

O céu azul fica lá fora,
aqui dentro tudo é cinza,
sua ausência apaga o sol:
não vejo nada.