sábado, 3 de outubro de 2015

Dona de Mim

Olhar de intenso brilho,
trilho que me leva ao paraíso.
Riso que ilumina o meu rosto.
Gosto do mosto, embriaguez de amor.
A flor que vi no sonho,
da cor do lírio, do delírio exposto
nos versos que componho,
nos quais me exponho,
pois deixei de ser senhor.

Súdito de uma alma rara.
Bem mais que carnal estética,
poética beleza do ser.
Me fez ser quem eu não era,
transformou meu triste fim,
me rendi,
me entreguei,
se tornou dona de mim.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Ausência

Sem você não vale a pena.
Pois, pena sinto de mim.
Cercado de olhos por todos os lados,
sem você, me sinto só.

O céu azul fica lá fora,
aqui dentro tudo é cinza,
sua ausência apaga o sol:
não vejo nada.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O Verbo que Difere

Se a palavra é o que diz ser,
verdade é.
Se quer parecer o que não é,
mentira é.
A palavra fere, mas também cura.
Confere a quem diz e escreve
o poder da verve.
Ferve, côa e apura
o coração de quem se atreve
a se expor como quem serve
à palavra,
que mata e ressuscita,
faz a alma ficar bonita,
quando a noite vira dia
e a dor, poesia.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Não queria falar sobre isso

Ah! Saudade!
Intruso sentimento que me invade.
Que não pede licença.
Que me faz lembrar quando não quero.
Que machuca ao afirmar que não voltará o que espero.
Prepotente dor,
que chega adonando-se do hoje,
decretando que o ontem nunca mais,
sem respeitar o coração que sangra,
por não ter o que um dia foi.

Ah! Saudade!
Maldade que o tempo comigo faz.
Devoradora de sonhos,
inspiradora de versos tristonhos.
Que prefere a escuridão da noite.
Que pretere a luz do dia.
Que me assalta a alma, por pura covardia,
pois não tenho como contra ti lutar.
Herança de um legado triste: saber que já não existe.
E o que foi não será jamais.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Amor aos Cacos

Profanou o original. Quis juntar os cacos, colar pedaço a pedaço – pacientemente –, como habilidoso restaurador. Foi então que percebeu a sua falta de sensibilidade, quando, novamente, deixou cair, e os pedaços se multiplicaram. Na dor, descobriu que o original profanado não poderia ser recuperado. Largou os cacos no chão e o tempo fez virar pó.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Cromático

Percebendo o sinal verde, ele avançou. Papo vai, papo vem, ambos se derretendo publicamente, tudo bem encaminhado – tudo azul. Mas aí, a coisa ficou preta quando a esposa dele entrou pela porta do bar, interrompendo o colorido “happy hour”. Ele ficou branco de susto, ela, roxa de raiva. Com um sorriso amarelo, apresentou sua mulher à colega de trabalho, que, vermelha de vergonha, se desculpou alegando não saber que ele era casado. E foi assim que aquele mundo cor-de-rosa começou a desabar.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Primeiro Eu

Não queira que os outros queiram o que você não quer.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Plateia

Olhou o palco da vida sem coragem de subir nele. Escolheu o conforto da plateia com o medo de se expor. Abriu mão de ser protagonista da sua própria história; nem mesmo coadjuvante foi. E no final do espetáculo, quando a cortina se fechou, com um sorriso amarelado no rosto, só lhe restou aplaudir.

domingo, 20 de setembro de 2015

Dois em Um

Amo ser nós dois
Amo o ontem
Amo o agora
Certo que amarei o depois
Pois, com você, 
como não ser assim?
Me vejo em você
Vejo você em mim
Vejo dois 
Mas vejo um
[fusão de alma e coração]

Com você,
amo ser um 
O gosto de ver no seu rosto
aquilo que sou
E no brilho dos seus olhos
o que fizemos 
Sem você, não  serei mais eu
Pois quanto mais lhe tenho
menos tenho de mim
Me acho e desapareço,
me refaço e sigo

sábado, 19 de setembro de 2015

Resiliente

Cair e levantar faz parte do jogo. Derrotado só está aquele que parou de lutar.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Na Real

Sonhadora, pensou que se casaria com o príncipe encantado. Realista, descobriu que não se casara com o príncipe, mas com o cavalo do príncipe.

Tempo

Na infância, sonhava ser o Zorro. Cresceu, virou Sargento Garcia.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Histórias da Minha Avó


Minha avó já se foi há algum tempo deixando muita saudade. Mas, não deixou só saudade, deixou também ensinos e princípios que fazem parte da minha formação e me influenciam até hoje. Além desse precioso legado, vovó também deixou muitas histórias. Outro dia me lembrei de uma delas e comecei a rir sozinho. Não tenho a mesma maestria da minha saudosa avó, mas vou me arriscar a reproduzi-la aqui nesse espaço.
No tempo que ainda existiam os bondes, tinha-se que tomar muito cuidado com os punguistas, aqueles indivíduos que se aproveitam da aglomeração para furtar, o popular batedor de carteira. Tudo era feito com muito jeito, nada parecido com a violência dos nossos dias, até os assaltos eram mais românticos. Os famosos “dedos leves” andavam bem vestidos e usavam da sua “arte” para surrupiar os mais distraídos. E quando o bonde estava cheio, as oportunidades aumentavam e eles iam a campo.
Vovó sempre foi muito desconfiada, estava sempre atenta a tudo. Mas um dia, ao chegar em casa, constatou que fora roubada. A infeliz surpresa, sobretudo, a deixou irritada: “quando foi que o furto se deu? ” – perguntava indignada com a sua desatenção. Dona Alice detestava fazer papel de trouxa, não era nem pelos poucos tostões que o amigo do alheio levara da sua bolsa, mas pelo seu descuido, pela horrível sensação de que fora passada para trás. A idéia de que alguém estaria rindo dela naquela hora, fazia-lhe ferver de raiva.
Foi aí que teve a inspiração de dar o troco. Na próxima vez que precisou ir ao centro da cidade num horário mais tumultuado, vovó pegou uma das suas bolsas velhas e encheu de esterco de vaca. Fez questão de colher o produto recém-saído das entranhas do animal, por estar ainda bem úmido. Colocou a carteira dentro da sombrinha e saiu em direção à parada do bonde, com a armadilha preparada. O bonde estava lotado, mas um gentil cavalheiro cedeu-lhe o lugar. Obedecendo a estratégia que ela mesma elaborara, uns cinco minutos antes de saltar, colocou-se em pé com a bolsa propositalmente entreaberta. Comprimida entre os demais passageiros foi se dirigindo a uma das saídas. O bonde parou e vovó desceu, sem notar nada de diferente, até que, ao se preparar para atravessar a avenida, percebeu que o gentil cavalheiro que cedera o seu lugar no início da viagem, já estava do outro lado da avenida limpando a mão com um lenço e fulminando minha avó com os olhos. Ela resolveu não atravessar a avenida, deu meia volta e entrou numa loja de tecidos com ar de vitoriosa.

Fim da Linha

A bala nas costas ceifou o menino com uma vida inteira pela frente.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Labirinto

Compartimentos da alma:
estranhos lugares que não conhece,
susto do espelho que mostrou
o que não queria ver.

No imenso labirinto,
o instinto do sobreviver
– do viver sobre, do apesar de tudo.
No silêncio surdo,
alma se cala,
mas não se entrega.

Perdido por dentro,
busca saída.
Na esquina que se aproxima,
enxerga a porta.
Espreita pela fresta:
vê na réstia de luz
a sombra da cruz que o espera.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Restauração

“Pedro entristeceu-se por ele lhe ter dito, pela terceira vez: Tu me amas? E respondeu-lhe: Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo”. (Jo 21:17)

Lá estavam eles, assentados lado a lado junto ao braseiro improvisado, onde os peixes assavam. A situação era constrangedora. Ele não era nem sombra daquele homem impetuoso dos últimos três anos. Aquele que liderava as conversas, que determinava os assuntos do grupo, que estava sempre pronto a responder às perguntas do Mestre. Dessa vez é diferente, ele não consegue quebrar o silêncio, nem ousa se explicar. Limita-se a olhar o fogo que está à sua frente, onde a refeição está sendo preparada. Fogo que o remete às lembranças recentes. Há poucos dias ele estava em frente ao fogo no pátio da casa do sumo sacerdote, assentado com pecadores que aguardavam a decisão do sinédrio sobre o que fariam com o Senhor. Fogo que testemunhou a sua tríplice negação, conforme o próprio Mestre lhe avisara que faria. O galo cantou e a sua mente foi acionada. Ao se lembrar do que fora dito por Jesus – “Me negarás três vezes antes que o galo cante” – desaba num choro amargo.   
O Mestre foi condenado, sofreu nas mãos dos pecadores. O Mestre morreu, mas também ressuscitou e, agora, está ali assentado ao seu lado em frente ao Mar da Galileia, palco de tantos milagres. Mas o que dizer? O que falar numa situação como aquela? Consciente da sua limitação, aquele homem outrora impulsivo, permanece em silêncio fitando firmemente o fogo. Então o Mestre rompe o silêncio e pergunta:
“Simão, filho de João, amas-me mais do que estes outros? (Jo 21:16)
Ele responde que sim. Jesus pergunta novamente. Ele repete a resposta. Mas Jesus insiste e faz a mesma pergunta pela terceira vez, e Pedro se entristece, e responde diferente:
“Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo”. (Jo 21:17)
Eis o ponto principal. Ele sabe todas as coisas. Conhece todas as nossas limitações, as nossas debilidades, medos e fracassos. Mas o que interessa para Ele é se de fato o amamos, se estamos dispostos em nome desse amor cuidar das suas ovelhas, apascentar o seu rebanho, pastorear os pequeninos. Ainda que estejamos desapontados com o que fizemos, ainda que não tenhamos nem coragem de romper o silêncio, de nos acharmos incapazes, de não merecermos tamanha graça, a pergunta que o Senhor sempre fará é essa:
“Tu me amas?”
Se a resposta for sim, Ele vai dizer: Siga em frente, conto contigo no meu projeto. Portanto, se você está decepcionado consigo mesmo, diga sim, Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo.

sábado, 12 de setembro de 2015

Sobre Planos

“Os planos do diligente tendem à abundância, mas a pressa excessiva, à pobreza”. Pv 21:5

Viver por tentativas, sem planejar e desenvolver meios de alcançar objetivos, não é o melhor caminho. Não é sábio fazer da vida uma roleta. Sair à luta de qualquer jeito para ver o que vai dar, algumas vezes pode até mesmo dar certo – alguém já disse que até um relógio quebrado acerta a hora duas vezes por dia. Porém, planejar, se aconselhar e buscar direção em Deus, antes de sair por aí atirando para todos os lados, é fundamental para colher bons resultados.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

De Volta à Vida

Depois da tempestade que lhe abatera, assentou-se sobre as sobras, na tentativa de preservar os restos. A devastação das suas estruturas roubou-lhe a coragem. Pensou que o melhor a fazer seria recolher-se, sair de circulação e trancar-se por dentro. Tornou-se súdito do medo. Até que um dia percebeu a insistência do sol que teimosamente tentava entrar por um canto da janela, lacrada por pesadas cortinas que bloqueavam a luz.

A cena fez compreender a metáfora da sua alma, num ímpeto abriu as cortinas e deixou que o sol inundasse o interior do quarto. O gesto lhe devolveu o ânimo, as “cortinas” do seu ser foram abertas e a luz que em todo tempo esteve do lado de fora querendo entrar não encontrou mais resistência e desfez a escuridão. Destemido, liberto de si mesmo, girou a chave, destrancou a porta e saiu da clausura, recuperou o sorriso e voltou a viver.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Culpa


Estava ali, mas como gostaria de não estar. Desconfortável. Nitidamente constrangido com o que fizera, buscava dentro de si uma justificativa, uma desculpa convincente, mas os argumentos óbvios da sua alma não convenciam nem a ele mesmo, por isso não disse nada, esperando que ela quebrasse o silêncio.
Olhava para si mesmo, e no seu autoconfronto julgara-se sem autoridade para propor qualquer coisa. Como criança que fez arte, assim estava, esperando a sua sentença. Exposto, entregue, sem defesa.
De cabeça baixa, fixou o olhar na mancha do carpete, e pensou:
– “O que será que derramaram ali? Parece café”.
Mais uma tentativa frustrada de fugir dos pensamentos que consumiam o seu interior. Queria se distrair, mas não teve jeito, sua mente voltou a pensar no que não queria, por mais que se esforçasse era incapaz de desviar-se do assunto que mentalmente se desenrolava, pois o que imperava, na pequena sala onde estavam, era o silêncio.
Silêncio ensurdecedor. Ninguém falava, mas as vozes do íntimo reverberavam dentro dele como barulho de grande cachoeira. Pensamento acelerado, cobrança que não cessa, voz que se repete, insistente:
–“O que foi que eu fiz? O que foi que eu fiz?”
– “Ah, se eu tivesse uma nova oportunidade, uma única chance! Certamente faria diferente. Não seria mais do jeito que foi; eu sei que não seria! ” – gritava ele por dentro, sem abrir a boca, sem emitir som.
E o silêncio prosseguiu. Ele não ousou dizer nada, e percebeu que o silêncio dela era proposital. Uma estratégia de castigo – crueldade do credor diante daquele que lhe deve. E assim, ela fechou a revista que folheara durante todo o tempo, disse um gelado “boa noite” saindo em direção ao quarto, enquanto ele permaneceu no porão da tortura.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

De repente, Uma voz!

“Mas Jesus imediatamente lhes disse: Tende bom ânimo! Sou eu. Não temais!” (Mt 14:27)

O vento forte pôs em risco a embarcação. O cenário era tenebroso, as ondas vinham de encontro ao barco – frágil –, insuficiente para suportar aquela tormenta. Lutando pela vida, lá estavam doze homens – discípulos do Mestre Jesus – apavorados, sem qualquer perspectiva de salvação: o naufrágio era iminente. (Mt 14:22-33)
Na escuridão da noite, tomados pelo medo de perecer, o pavor aumentou quando ao longe viram um vulto se aproximando e julgaram ser um fantasma. A primeira impressão é que o fim chegara, mas, de repente, uma voz soou firme e familiar:
– “Tende bom ânimo! Sou eu; não temais!”
Um fato novo. O que parecia ser o ponto final transformou-se em fonte de esperança. A voz fez renascer o ânimo, a falta de prisma deu lugar à ousadia. Então, Pedro pede para caminhar por sobre as águas como um sinal. Prontamente o Senhor ordena:
– “Vem”.
O discípulo passa do desespero à confiança e milagrosamente flutua sobre as águas, mergulhado no sobrenatural. A luta pela vida é substituída pelo triunfo. Como explicar isso? Minutos atrás, ele lutava com os seus amigos para não ser engolido pelo mar, agora caminha, vitoriosamente, sobre as mesmas águas ameaçadoras.
Mas a força dos ventos desperta no seu íntimo a dúvida, e o discípulo começa a afundar. Ah, a dúvida! Por que ela tem que aparecer quando começamos a caminhar no sobrenatural? Vulnerável, novamente grita por socorro. O Mestre o pega pela mão, sem perder a oportunidade de nos ensinar:
– “Homem de pequena fé. Por que duvidaste?”
E assim, o sobrenatural é interrompido. O Mestre entra no barco com o discípulo e o vento cessa, e tudo volta ao normal. Do jeito que a gente gosta: mar tranquilo, sem grandes ondas, sem ventos ameaçadores. Todavia, sem oportunidades para que o sobrenatural tome conta do natural. Sem oportunidades para que a Glória do Senhor se manifeste.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Passado

Passado que passa diante dos olhos,
é passado que não passa.
Por mim passa
a passos lentos,
despertando a alma,
acendendo luzes.

Traz de volta o que não volta:
açoita.
Passado que não passa,
só passa diante de mim,
assim,
feito presente.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Passado, Presente e Futuro

"A transformação não resulta da briga com o passado, mas da diligência na formação do novo. Se os meus olhos estão presos no que passou, é porque o passado não passou – logo, presente e futuro se perderam”.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Mais Além

"Quando vivemos pela perspectiva da eternidade, tudo o que vemos nesse mundo se torna menor, e a alma se acalma".

domingo, 30 de agosto de 2015

Longe de Mim

Longe de mim a covardia
que me assedia
com a doce mentira
de que a prudência diz para não tentar

Longe de mim a tentação do conforto
que rouba as minhas forças,
que me faz ficar sentado
vendo a vida desfilar.

Longe de mim a alma conformada,
escorada em desculpas esfarrapadas,
que engole o engano insano
só para ter o que dizer.

Longe de mim a falsa paz
de quem se rende ao medo,
que negocia a consciência
e não se dá valor.

Longe de mim a dor
da vergonha de quem se entrega,
e com medo a si renega,
sem coragem de lutar.


sábado, 29 de agosto de 2015

Mais que Palavras

“Ide e anunciai a João o que vistes e ouvistes...” (Lc 7:22).

Quando criança, eu ficava muito irritado nas vezes que duvidavam de mim. Na adolescência e juventude, parece que esse sentimento ganhou mais força ainda. Quando dizia algo e alguém não acreditava no que eu estava dizendo, minha cabeça fervia. Confesso que levou tempo para me livrar dessa limitação. Hoje não me incomodo mais, às vezes simplesmente lamento quando não acreditam nas minhas propostas. Lamento não por mim, mas por ver que alguém poderia ter um desenrolar de vida bem melhor do que aquele que se desenha diante da dúvida e até mesmo do pouco caso frente à palavra do profeta.
Quando João Batista esteve frente a frente com Jesus no Rio Jordão, a princípio, o profeta não quis batizá-lo, confessando que ele é que precisava ser batizado por Jesus:
 – “Eu é que preciso ser batizado por ti, e vens tu a mim” (Mt 3:14).
Então o Senhor aquietou a sua alma, dizendo:
– “Deixa por agora, porque assim convém que se cumpra toda a justiça” (Mt 3:15).
Em outra ocasião, João vê Jesus passar e declara publicamente:
– “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1:36).
Entretanto, depois desses reconhecimentos públicos, certo dia, João chama os seus discípulos e lhes dá uma missão. Eles deveriam ir até Jesus e perguntar se realmente Ele era o que estava para vir, ou eles deveriam esperar outro. Que atitude surpreendente. Depois de todas aquelas reveladoras declarações, João Batista é tomado de dúvida.
Certamente, o estilo do ministério de Jesus foi bem diferente do estilo do ministério de João. Jesus se assentou, comeu e bebeu com publicanos e pecadores. João Batista jamais adotaria um comportamento assim. Então, a revelação do Espírito foi confrontada pela imagem do Messias construída por João na sua própria mente.
  “Será que é ele, ou tem outro ainda para vir? ”
 Que coisa incrível, como alguém depois de declarar que Jesus era o Cordeiro, depois de relutar em batizá-lo por reconhecer que necessitava do batismo do Senhor e não o contrário, de repente deixar-se dominar pela dúvida a ponto de enviar mensageiros com aquela pergunta pouco elegante.
Sabe o que Jesus respondeu quando os discípulos de João lhe perguntaram se era Ele ou haveria outro? Nada. Isso mesmo, Jesus não falou nada. Diz a Bíblia que na mesma hora, Jesus curou os enfermos, libertou os endemoninhados e deu vista a muitos cegos. Então, depois de ter feito isso, disse aos enviados de João:
– “Ide e anunciai a João o que vistes e ouvistes...” (Lc 7:21-22).
Mais do que falar, Jesus fez. Esse é o princípio. Quando possíveis dúvidas surgirem a seu respeito, simplesmente não diga nada. Não tente se justificar, não tente se explicar, não se irrite. Simplesmente viva. Simplesmente faça. Os argumentos da dúvida caem diante dos fatos. Aquilo que somos é o que deve falar por nós.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Parece, mas não é

“O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa dos lábios vem do Senhor. Todos os caminhos do homem são puros aos seus olhos, mas o Senhor pesa o espírito. Confia ao Senhor as tuas obras, e os teus desígnios serão estabelecidos”. (Provérbios 16:1-3)

Isso é coisa do século passado. Lá na década de 1980, uma propaganda de remédio fez muito sucesso na televisão brasileira. Aqueles que têm mais de quarenta anos certamente vão se lembrar da propaganda que apresentava um remédio para caspa, mas dizia que não era remédio. O bordão da propaganda era esse: “Parece, mas não é”. O produto, que não se sabia direito se era um tipo de xampu ou um remédio somente para caspa, vendeu muito, e ainda que tivesse aspecto de remédio, não queria ser considerado como um remédio, pois almejava o status de xampu, a fim de não cair nas teias do preconceito, pois as pessoas que tinham caspa se sentiam constrangidas com o fato. Então, ainda que fosse um remédio, o produto não se apresentava como tal, com o objetivo claro de atrair aqueles que se sentiam desconfortáveis com a excessiva descamação do couro cabeludo. O tempo passou, a evolução chegou, e os xampus anticaspa dominaram o mercado e a polêmica de então acabou.
Lembrando-me da propaganda, percebo como em muitas situações estamos cercados por aquilo que "parece, mas não é". Quantas vezes nos empolgamos com pessoas, alimentamos o nosso ânimo com circunstâncias que parecem promissoras, fazemos apostas altíssimas em caminhos que parecem nos oferecer o melhor, mas, infelizmente, acabamos nos decepcionando. Lamentavelmente, aquilo que parecia, só parecia, e as expectativas não se cumpriram. Não quero roubar a sua motivação, nem gerar insegurança na sua alma – longe disso –, quero simplesmente propor que antes de qualquer "aposta", tudo seja pesado diante do Deus Todo-Poderoso que tudo conhece, e, certamente, nos livrará do engano, nos dando uma direção correta.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Fotografias

“Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens...” (Is 53:3)

 
Na fotografia, ele não estava. Contemplando o pequeno porta-retratos, chocou-se quando viu todos menos ele. Sentiu-se mal. Excluído. Um mar de possibilidades inundou o pensamento.
– “Por que não me chamaram? Por que fiquei de fora?”
Todas as vezes que olhava, mesmo sem querer, a odiosa fotografia exposta sobre a escrivaninha da sala, onde todos com sorrisos reluzentes exibiam a alegria de ser família, sentia-se menor.
O argumento virou cadeia e na prisão ficou. Não quis lutar por um lugar, não quis mostrar o seu valor. Encolheu-se. Com pena de si mesmo, consolou a alma assumindo o rótulo de rejeitado. Quando todos avançavam, não seguiu em frente. Alimentou lamentos e ficou para trás.

 
Podemos considerar a estorinha acima um tanto tola. Mas, na realidade, quantas coisinhas tolas ainda têm a capacidade de nos prender. Quantos, ao se sentirem rejeitados, escolhem o caminho da autocomiseração quando percebem que não lhes deram a consideração que julgavam merecer.
Saber quem somos e conhecer o nosso valor é o remédio para essas horas. Jesus disse que sabia de onde vinha, e também sabia para onde ia (Jo 8:14). Seu testemunho era verdadeiro porque não dependia da aceitação alheia, não precisava dos aplausos do mundo para alimentar o ego e poder seguir em frente. Sobretudo, sabia que era o Filho amado no qual o Pai tinha prazer (Mt 3:17). Nada é mais importante para nós do que a relação estreita com o Deus Todo-Poderoso. Ela é vital para uma alma confiante e segura.
Certamente, estacionar o carro no acostamento da “rodovia da vida” e se entregar ao lamento por não termos recebido o apoio que esperávamos receber, não é o melhor caminho. Acumular mágoas, fazer do coração uma lata de lixo, um depósito de ressentimentos, tudo isso nos roubará as forças e a capacidade de seguir em frente. E, enquanto lamentamos, a fila anda.
O Filho de Deus foi o mais rejeitado entre os homens. Sendo Ele Deus, obviamente deveria ter recebido tratamento à altura. Mas não foi assim. Foi desprezado e tratado com indignidade. Entretanto, nada disso teve a capacidade de bloqueá-lo, de impedi-lo de cumprir sua missão e alcançar o seu alvo. Não houve na história da humanidade e nunca haverá uma vida vivida com tanta dignidade e significado, mesmo Jesus sendo rejeitado.

A Casa é Sua

Dez anos depois, ele me aparece. O interfone tocou, o porteiro anunciou seu nome. Tremi e pensei, “não pode ser”. Sentimentos misturados – torci pelo engano. Mas um lado dentro de mim, ardentemente desejava que fosse ele. E era. Deixei que subisse. Meu coração disparou – tive a impressão que pulsava no pescoço, querendo sair pela boca.

A campainha tocou, tentei ser natural, respirei fundo e abri a porta. Olhei pra ele, nitidamente mais magro. Ele me olhou, acho que percebeu que os meus cabelos estavam mais brancos. Dez anos! Uma lágrima mal disfarçada rolou na sua face, meio que gaguejando, perguntou:

 – “Posso entrar?”
Com a voz embargada, a frase ensaiada por tanto tempo saiu pela minha boca:
– “Entra, filho, a casa continua sendo sua”.

Maria Clara


Não havia ainda completado um ano de vida quando a tragédia bateu à porta. Era uma viagem muito curta que não justificava levar o bebê. Sairiam logo cedo e, certamente, antes de escurecer já estariam de volta. Naquele dia, a mãe, professora da rede pública, não lecionaria, o que proporcionou acompanhar o marido numa breve viagem de negócios à serra gaúcha. Nos últimos tempos, com a chegada de Maria Clara e a correria costumeira de seu pai, pouco tempo tinham pra ficar juntos. Por isso, ela cedeu diante da insistência do marido em acompanhá-lo, e unir o útil ao agradável. Ele resolveria tudo na parte da manhã, e então poderiam almoçar juntos, aproveitar um pouco o friozinho da serra e voltar antes do sol se por. Assim fizeram, conforme o planejado. Mas na volta... a curva, o caminhão, a capotagem, a tragédia, e Maria Clara sem a mínima consciência da vida, perdeu de uma só vez os seus pais. Na manhã da viagem, ela foi entregue à avó. Ninguém esperava que fosse pra sempre, mas foi. Quem poderia imaginar que aquela seria a última vez que mamaria no peito de sua mãe, e que o beijo que recebera na bochecha rosada seria o selo da despedida de seu pai – um adeus pra nunca mais.

Quando começou a falar, às vezes falava vovó, mas na falta da mãe, por instinto trocou vovó por mamãe. Essa confusão que surgiu tão cedo na sua cabeça, acompanhou Maria Clara em toda a sua trajetória. Sem a figura do pai, e substituindo a mãe pela avó, tentou encontrar a sua identidade. Não havia dentro dela nenhum tipo de revolta pelo modo como a vida se apresentou, somente um vazio, a saudade de alguém que não conhecera.

Dona Débora era uma dessas pessoas que podemos chamar de especiais. A vida lhe imprimiu as marcas das perdas. Na adolescência perdeu a mãe, e foi morar com os tios quando o pai caiu no mundo e nunca mais deu notícias. Teve que aprender a cuidar de si mesma, já que a família que lhe abrira as portas não tinha muitos recursos. Casou-se ainda muito jovem, e precocemente ficou viúva com três crianças pequenas para criar. Não correu da luta, não se entregou à reclamação da má sorte, continuou vivendo. Buscou a dignidade para a sua casa. Os filhos cresceram e corresponderam à expectativa do sacrifício que fizera para que se tornassem alguém na vida. Por fim, perdeu a filha caçula, na flor da idade, e como um presente que pareceu recompensar a dor, recebeu Maria Clara para criar.

Talvez por saber o que é sofrer, amou a neta com todas as suas forças, e se desdobrou para supri-la em tudo. Achava que o destino tinha sido duro demais, e não ter a oportunidade de conhecer os pais já era sofrimento bastante. Por isso, queria proteger a neta de qualquer coisa que lhe ameaçasse. Sempre ofereceu o que tinha de melhor. Ainda que não quisesse deixar transparecer que o seu afeto era um esforço para amenizar o suposto sofrimento de Maria Clara, o seu comportamento excessivamente misericordioso em relação à neta não deixava dúvida. Estava sempre disposta a entendê-la, mesmo os deslizes mais grosseiros contavam com o olhar contemporizador da avó. Dona Débora nunca escondeu a verdadeira história, ainda que lhe tenha sido doloroso falar do acidente que vitimou os seus pais, ela superou a dor e não teve medo de contar a verdade.  Ela sempre se apresentou como avó, mas não disfarçava o prazer que sentia quando a neta lhe chamava de mãe.

Maria Clara desde cedo foi uma menina tranquila, isso fazia parte da sua personalidade. Seu olhar transmitia tristeza, mas havia nela uma atraente doçura, principalmente na voz. Ainda muito pequena, quando começou a ser alfabetizada, já surpreendia a todos com frases e observações que não correspondiam à criança da sua idade. Certa feita, Dona Débora, irritada com o atraso da reforma da casa, desatou a reclamar com os pedreiros que tentavam explicar a razão da demora, a discussão foi esquentando em função da inflexibilidade da dona da casa. De repente, sua alma se quebrantou, quando a neta puxando-lhe pelo vestido, suavemente disse: – “Calma, mamãe, vai dar tudo certo. São apenas mais alguns dias e já acaba”. Ela teve que se segurar para não chorar, abaixou-se e deu um beijo na menina e concordou dizendo: – “É verdade, você tem razão, são mais alguns dias e já acaba”.

Não foram muitas as bonecas que teve. Não porque a avó não quisesse comprá-las. A verdade é que Maria Clara nunca se interessou muito por elas. Gostava mais dos livros, principalmente dos que tinham figuras que alimentavam a sua imaginação. Em cada uma delas uma viagem por um mundo de fantasia que criava facilmente e lhe proporcionava enorme prazer. Na adolescência sua alma mostrou-se ainda mais sensível. Colocar-se no lugar do outro era algo que fazia comumente. Detestava injustiças, mas tinha dificuldades de se levantar contra elas. Não conseguia entender como as pessoas podiam ser tão mesquinhas, como alguém podia passar sobre o outro e não respeitar o seu direito. Todavia, sem espírito de liderança, deprimia-se diante dos fatos que não aceitava, mas não via como mudá-los. Sua avó preocupava-se com a sua maturidade precoce. Queria tanto que a neta fosse como as meninas de sua idade, pois achava que a sua sensibilidade só poderia acarretar-lhe mais sofrimento.  

E a vida seguiu. Aplicada nos estudos, nunca deu trabalho para a avó. Sempre tranqüila, passou por todas as etapas escolares e ingressou na Faculdade de Pedagogia. Sem que ninguém dissesse nada, escolheu a profissão da mãe: sentia um prazer especial em trabalhar com crianças. Foi então, quando a vida parecia encaminhada, que Maria Clara conheceu Carlos. Oposto do seu temperamento, comunicativo, daquele tipo que está sempre pra cima, sempre feliz. Antes dele, ela nunca havia sequer pensado em ter alguém, mas descobriu nele algo que lhe faltava, e o envolvimento foi inevitável. Desde o começo, Dona Débora olhou para aquele relacionamento com desconfiança. Não queria que a neta sofresse, mas sabia que não poderia tê-la para sempre dentro de uma redoma protetora. Estava convencida de que Maria Clara precisava conhecer a vida – e realmente conheceu.

Não demorou muito para que o fogo da paixão queimasse o seu interior. Descobriu a dor: ciúmes e desconfiança, sentimentos até então desconhecidos, consumiam a sua alma. Carlos gostava da vida mais do que tudo, e nunca fez questão de esconder que esse era o seu jeito. Do seu modo, ele amava Maria Clara, mas jamais passou pela sua cabeça sacrificar a sua liberdade por ela. Assumir responsabilidades, definitivamente, não era com ele. Na sua ótica, a vida era uma festa, por isso vivia num estado permanente de celebração. Não era assim que ela pensava, sua vida era certinha, em tudo organizada – detestava o improviso. Se não fosse Carlos, sua trajetória seria totalmente previsível, era assim que gostava, dessa forma sentia-se protegida. Mas não foi do jeito que ela queria. De todas as formas, tentou arrancar a paixão que queimava no seu peito, buscou ser racional, certamente, era o melhor que poderia fazer. Mas na guerra da paixão contra a razão, a prudência perdeu feio. Entregou-se por inteira, pagou pra ver, arriscou-se num mergulho insano, pulou do despenhadeiro numa noite escura a fim de testar as suas asas.

O voo foi curto e, então, logo veio a queda. Reeditando o poeta, “foi eterno enquanto durou”. Além de um coração machucado, no juntar dos cacos, descobriu que estava grávida. Não disse nada. Percebeu que Carlos era escravo da sua própria liberdade, não usaria a gravidez para coagi-lo. Seguiu em frente, mesmo sem muita cabeça para os estudos, tocou o barco. Muita força pra remar contra a correnteza, mas aprendeu a ser forte e não se entregou. Não permitiu que ninguém ficasse com pena dela, não se fez de vítima, deixou que a mulher que estava lá dentro viesse pra fora. Estava no sétimo mês de gravidez quando se formou. Com um barrigão enorme, homenageou a avó na hora que recebeu o diploma – sentada na plateia, Dona Débora se desmanchou em lágrimas. 

Tiago chegou numa manhã de domingo. O céu estava totalmente azul, não havia nuvem alguma. Veio como um presente de Deus. O nome foi uma homenagem ao pai que ela não conhecera, e por isso fez questão de acrescentar “Neto” no final. Uma criança muda os ares de uma casa, e essa foi a grande missão de Tiago, realmente tudo mudou com a sua chegada. Depois de um tempo, Maria Clara até achou graça quando comparou as dores do seu relacionamento com Carlos com a alegria que o filho trouxe para a sua vida. A vida se reorganizou e pouco tempo depois do nascimento de Tiago, Maria Clara já estava lecionando na escola onde fora estagiária. Ainda que a jornada fosse dura, amava o que fazia. O filho ficava com a bisavó que, mesmo com a idade avançada, com prazer cuidava do “presentinho de Deus”, como ela gostava de chamar o bisneto.

Como era do seu feitio, a vida fluiu dentro da normalidade, bem ao seu gosto. Esse era o seu jeito, quanto mais previsível, melhor. Mas não foi assim, o destino havia preparado uma surpresa para ela.  E quando a alma se sentia segura, longe da dor, conheceu Fernando, irmão de uma colega de trabalho. Depois que Carlos saiu da sua vida, não permitiu que seu coração sonhasse mais, ela sabia o quanto aquela paixão lhe custara, não estava disposta a mais um voo sem asas. Mas aconteceu, tentou fugir, não conseguiu. Ainda que ele fosse tão diferente do pai do seu filho, o medo de um novo fracasso assaltou o seu interior. Gentil, com a paciência de quem ama, Fernando insistiu na ideia. Ele também vinha de um recente tropeço, acabara de se divorciar, mas viu em Maria Clara o que sempre procurou. Ainda que tudo fosse tão ressente, não teve dúvida de que o caminho era aquele, por isso não permitiu que a oportunidade escapasse. O tempo foi parceiro, o receio de um novo revés cedeu lugar à confiança e Maria Clara disse sim, sem medo de se arrepender. Foi num sábado de sol, com o céu carregado no azul, igual ao dia em que Tiago nasceu, que Maria Clara e Fernando se casaram, foi o “presentinho de Deus” quem levou as alianças. Dona Débora não conseguia se conter de tanta alegria, sentia-se recompensada pela felicidade da neta.

Tempos depois, num dia de semana, logo cedo, Maria Clara e Fernando passaram na casa de Dona Débora para deixar com ela o bisneto Tiago. Saíram em direção à serra gaúcha. Fernando tinha algumas coisas para resolver por lá, nada muito complicado que não pudesse ser solucionado pela manhã. Naquele dia, ela não lecionaria, e assim poderia acompanhar o marido na breve viagem. Aproveitariam para almoçar juntos e retornariam no final do dia. Assim fizeram, conforme o planejado. Foi um dia maravilhoso, o friozinho da serra num dia de sol. E na volta... bem... na volta eles passaram pela curva onde os pais de Maria Clara morreram e seguiram em frente.

Reflexos de Mim Mesmo

A escuridão da noite
Vencida foi
Luz entrou pela janela
Iluminando o interior
Romperam-se trevas que me assolavam
A vidraça clara
Espelho se fez 
E na janela
[feito alma exposta]
Refletida vi,
A minha face
No brilho do vidro me percebi,
No conteúdo iluminado
Contemplei imperfeições 
Mas na luz que me invadiu 
Pondo fim à escuridão,
Achei graça e misericórdia