segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Mais Além

"Quando vivemos pela perspectiva da eternidade, tudo o que vemos nesse mundo se torna menor, e a alma se acalma".

domingo, 30 de agosto de 2015

Longe de Mim

Longe de mim a covardia
que me assedia
com a doce mentira
de que a prudência diz para não tentar

Longe de mim a tentação do conforto
que rouba as minhas forças,
que me faz ficar sentado
vendo a vida desfilar.

Longe de mim a alma conformada,
escorada em desculpas esfarrapadas,
que engole o engano insano
só para ter o que dizer.

Longe de mim a falsa paz
de quem se rende ao medo,
que negocia a consciência
e não se dá valor.

Longe de mim a dor
da vergonha de quem se entrega,
e com medo a si renega,
sem coragem de lutar.


sábado, 29 de agosto de 2015

Mais que Palavras

“Ide e anunciai a João o que vistes e ouvistes...” (Lc 7:22).

Quando criança, eu ficava muito irritado nas vezes que duvidavam de mim. Na adolescência e juventude, parece que esse sentimento ganhou mais força ainda. Quando dizia algo e alguém não acreditava no que eu estava dizendo, minha cabeça fervia. Confesso que levou tempo para me livrar dessa limitação. Hoje não me incomodo mais, às vezes simplesmente lamento quando não acreditam nas minhas propostas. Lamento não por mim, mas por ver que alguém poderia ter um desenrolar de vida bem melhor do que aquele que se desenha diante da dúvida e até mesmo do pouco caso frente à palavra do profeta.
Quando João Batista esteve frente a frente com Jesus no Rio Jordão, a princípio, o profeta não quis batizá-lo, confessando que ele é que precisava ser batizado por Jesus:
 – “Eu é que preciso ser batizado por ti, e vens tu a mim” (Mt 3:14).
Então o Senhor aquietou a sua alma, dizendo:
– “Deixa por agora, porque assim convém que se cumpra toda a justiça” (Mt 3:15).
Em outra ocasião, João vê Jesus passar e declara publicamente:
– “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1:36).
Entretanto, depois desses reconhecimentos públicos, certo dia, João chama os seus discípulos e lhes dá uma missão. Eles deveriam ir até Jesus e perguntar se realmente Ele era o que estava para vir, ou eles deveriam esperar outro. Que atitude surpreendente. Depois de todas aquelas reveladoras declarações, João Batista é tomado de dúvida.
Certamente, o estilo do ministério de Jesus foi bem diferente do estilo do ministério de João. Jesus se assentou, comeu e bebeu com publicanos e pecadores. João Batista jamais adotaria um comportamento assim. Então, a revelação do Espírito foi confrontada pela imagem do Messias construída por João na sua própria mente.
  “Será que é ele, ou tem outro ainda para vir? ”
 Que coisa incrível, como alguém depois de declarar que Jesus era o Cordeiro, depois de relutar em batizá-lo por reconhecer que necessitava do batismo do Senhor e não o contrário, de repente deixar-se dominar pela dúvida a ponto de enviar mensageiros com aquela pergunta pouco elegante.
Sabe o que Jesus respondeu quando os discípulos de João lhe perguntaram se era Ele ou haveria outro? Nada. Isso mesmo, Jesus não falou nada. Diz a Bíblia que na mesma hora, Jesus curou os enfermos, libertou os endemoninhados e deu vista a muitos cegos. Então, depois de ter feito isso, disse aos enviados de João:
– “Ide e anunciai a João o que vistes e ouvistes...” (Lc 7:21-22).
Mais do que falar, Jesus fez. Esse é o princípio. Quando possíveis dúvidas surgirem a seu respeito, simplesmente não diga nada. Não tente se justificar, não tente se explicar, não se irrite. Simplesmente viva. Simplesmente faça. Os argumentos da dúvida caem diante dos fatos. Aquilo que somos é o que deve falar por nós.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Parece, mas não é

“O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa dos lábios vem do Senhor. Todos os caminhos do homem são puros aos seus olhos, mas o Senhor pesa o espírito. Confia ao Senhor as tuas obras, e os teus desígnios serão estabelecidos”. (Provérbios 16:1-3)

Isso é coisa do século passado. Lá na década de 1980, uma propaganda de remédio fez muito sucesso na televisão brasileira. Aqueles que têm mais de quarenta anos certamente vão se lembrar da propaganda que apresentava um remédio para caspa, mas dizia que não era remédio. O bordão da propaganda era esse: “Parece, mas não é”. O produto, que não se sabia direito se era um tipo de xampu ou um remédio somente para caspa, vendeu muito, e ainda que tivesse aspecto de remédio, não queria ser considerado como um remédio, pois almejava o status de xampu, a fim de não cair nas teias do preconceito, pois as pessoas que tinham caspa se sentiam constrangidas com o fato. Então, ainda que fosse um remédio, o produto não se apresentava como tal, com o objetivo claro de atrair aqueles que se sentiam desconfortáveis com a excessiva descamação do couro cabeludo. O tempo passou, a evolução chegou, e os xampus anticaspa dominaram o mercado e a polêmica de então acabou.
Lembrando-me da propaganda, percebo como em muitas situações estamos cercados por aquilo que "parece, mas não é". Quantas vezes nos empolgamos com pessoas, alimentamos o nosso ânimo com circunstâncias que parecem promissoras, fazemos apostas altíssimas em caminhos que parecem nos oferecer o melhor, mas, infelizmente, acabamos nos decepcionando. Lamentavelmente, aquilo que parecia, só parecia, e as expectativas não se cumpriram. Não quero roubar a sua motivação, nem gerar insegurança na sua alma – longe disso –, quero simplesmente propor que antes de qualquer "aposta", tudo seja pesado diante do Deus Todo-Poderoso que tudo conhece, e, certamente, nos livrará do engano, nos dando uma direção correta.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Fotografias

“Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens...” (Is 53:3)

 
Na fotografia, ele não estava. Contemplando o pequeno porta-retratos, chocou-se quando viu todos menos ele. Sentiu-se mal. Excluído. Um mar de possibilidades inundou o pensamento.
– “Por que não me chamaram? Por que fiquei de fora?”
Todas as vezes que olhava, mesmo sem querer, a odiosa fotografia exposta sobre a escrivaninha da sala, onde todos com sorrisos reluzentes exibiam a alegria de ser família, sentia-se menor.
O argumento virou cadeia e na prisão ficou. Não quis lutar por um lugar, não quis mostrar o seu valor. Encolheu-se. Com pena de si mesmo, consolou a alma assumindo o rótulo de rejeitado. Quando todos avançavam, não seguiu em frente. Alimentou lamentos e ficou para trás.

 
Podemos considerar a estorinha acima um tanto tola. Mas, na realidade, quantas coisinhas tolas ainda têm a capacidade de nos prender. Quantos, ao se sentirem rejeitados, escolhem o caminho da autocomiseração quando percebem que não lhes deram a consideração que julgavam merecer.
Saber quem somos e conhecer o nosso valor é o remédio para essas horas. Jesus disse que sabia de onde vinha, e também sabia para onde ia (Jo 8:14). Seu testemunho era verdadeiro porque não dependia da aceitação alheia, não precisava dos aplausos do mundo para alimentar o ego e poder seguir em frente. Sobretudo, sabia que era o Filho amado no qual o Pai tinha prazer (Mt 3:17). Nada é mais importante para nós do que a relação estreita com o Deus Todo-Poderoso. Ela é vital para uma alma confiante e segura.
Certamente, estacionar o carro no acostamento da “rodovia da vida” e se entregar ao lamento por não termos recebido o apoio que esperávamos receber, não é o melhor caminho. Acumular mágoas, fazer do coração uma lata de lixo, um depósito de ressentimentos, tudo isso nos roubará as forças e a capacidade de seguir em frente. E, enquanto lamentamos, a fila anda.
O Filho de Deus foi o mais rejeitado entre os homens. Sendo Ele Deus, obviamente deveria ter recebido tratamento à altura. Mas não foi assim. Foi desprezado e tratado com indignidade. Entretanto, nada disso teve a capacidade de bloqueá-lo, de impedi-lo de cumprir sua missão e alcançar o seu alvo. Não houve na história da humanidade e nunca haverá uma vida vivida com tanta dignidade e significado, mesmo Jesus sendo rejeitado.

A Casa é Sua

Dez anos depois, ele me aparece. O interfone tocou, o porteiro anunciou seu nome. Tremi e pensei, “não pode ser”. Sentimentos misturados – torci pelo engano. Mas um lado dentro de mim, ardentemente desejava que fosse ele. E era. Deixei que subisse. Meu coração disparou – tive a impressão que pulsava no pescoço, querendo sair pela boca.

A campainha tocou, tentei ser natural, respirei fundo e abri a porta. Olhei pra ele, nitidamente mais magro. Ele me olhou, acho que percebeu que os meus cabelos estavam mais brancos. Dez anos! Uma lágrima mal disfarçada rolou na sua face, meio que gaguejando, perguntou:

 – “Posso entrar?”
Com a voz embargada, a frase ensaiada por tanto tempo saiu pela minha boca:
– “Entra, filho, a casa continua sendo sua”.

Maria Clara


Não havia ainda completado um ano de vida quando a tragédia bateu à porta. Era uma viagem muito curta que não justificava levar o bebê. Sairiam logo cedo e, certamente, antes de escurecer já estariam de volta. Naquele dia, a mãe, professora da rede pública, não lecionaria, o que proporcionou acompanhar o marido numa breve viagem de negócios à serra gaúcha. Nos últimos tempos, com a chegada de Maria Clara e a correria costumeira de seu pai, pouco tempo tinham pra ficar juntos. Por isso, ela cedeu diante da insistência do marido em acompanhá-lo, e unir o útil ao agradável. Ele resolveria tudo na parte da manhã, e então poderiam almoçar juntos, aproveitar um pouco o friozinho da serra e voltar antes do sol se por. Assim fizeram, conforme o planejado. Mas na volta... a curva, o caminhão, a capotagem, a tragédia, e Maria Clara sem a mínima consciência da vida, perdeu de uma só vez os seus pais. Na manhã da viagem, ela foi entregue à avó. Ninguém esperava que fosse pra sempre, mas foi. Quem poderia imaginar que aquela seria a última vez que mamaria no peito de sua mãe, e que o beijo que recebera na bochecha rosada seria o selo da despedida de seu pai – um adeus pra nunca mais.

Quando começou a falar, às vezes falava vovó, mas na falta da mãe, por instinto trocou vovó por mamãe. Essa confusão que surgiu tão cedo na sua cabeça, acompanhou Maria Clara em toda a sua trajetória. Sem a figura do pai, e substituindo a mãe pela avó, tentou encontrar a sua identidade. Não havia dentro dela nenhum tipo de revolta pelo modo como a vida se apresentou, somente um vazio, a saudade de alguém que não conhecera.

Dona Débora era uma dessas pessoas que podemos chamar de especiais. A vida lhe imprimiu as marcas das perdas. Na adolescência perdeu a mãe, e foi morar com os tios quando o pai caiu no mundo e nunca mais deu notícias. Teve que aprender a cuidar de si mesma, já que a família que lhe abrira as portas não tinha muitos recursos. Casou-se ainda muito jovem, e precocemente ficou viúva com três crianças pequenas para criar. Não correu da luta, não se entregou à reclamação da má sorte, continuou vivendo. Buscou a dignidade para a sua casa. Os filhos cresceram e corresponderam à expectativa do sacrifício que fizera para que se tornassem alguém na vida. Por fim, perdeu a filha caçula, na flor da idade, e como um presente que pareceu recompensar a dor, recebeu Maria Clara para criar.

Talvez por saber o que é sofrer, amou a neta com todas as suas forças, e se desdobrou para supri-la em tudo. Achava que o destino tinha sido duro demais, e não ter a oportunidade de conhecer os pais já era sofrimento bastante. Por isso, queria proteger a neta de qualquer coisa que lhe ameaçasse. Sempre ofereceu o que tinha de melhor. Ainda que não quisesse deixar transparecer que o seu afeto era um esforço para amenizar o suposto sofrimento de Maria Clara, o seu comportamento excessivamente misericordioso em relação à neta não deixava dúvida. Estava sempre disposta a entendê-la, mesmo os deslizes mais grosseiros contavam com o olhar contemporizador da avó. Dona Débora nunca escondeu a verdadeira história, ainda que lhe tenha sido doloroso falar do acidente que vitimou os seus pais, ela superou a dor e não teve medo de contar a verdade.  Ela sempre se apresentou como avó, mas não disfarçava o prazer que sentia quando a neta lhe chamava de mãe.

Maria Clara desde cedo foi uma menina tranquila, isso fazia parte da sua personalidade. Seu olhar transmitia tristeza, mas havia nela uma atraente doçura, principalmente na voz. Ainda muito pequena, quando começou a ser alfabetizada, já surpreendia a todos com frases e observações que não correspondiam à criança da sua idade. Certa feita, Dona Débora, irritada com o atraso da reforma da casa, desatou a reclamar com os pedreiros que tentavam explicar a razão da demora, a discussão foi esquentando em função da inflexibilidade da dona da casa. De repente, sua alma se quebrantou, quando a neta puxando-lhe pelo vestido, suavemente disse: – “Calma, mamãe, vai dar tudo certo. São apenas mais alguns dias e já acaba”. Ela teve que se segurar para não chorar, abaixou-se e deu um beijo na menina e concordou dizendo: – “É verdade, você tem razão, são mais alguns dias e já acaba”.

Não foram muitas as bonecas que teve. Não porque a avó não quisesse comprá-las. A verdade é que Maria Clara nunca se interessou muito por elas. Gostava mais dos livros, principalmente dos que tinham figuras que alimentavam a sua imaginação. Em cada uma delas uma viagem por um mundo de fantasia que criava facilmente e lhe proporcionava enorme prazer. Na adolescência sua alma mostrou-se ainda mais sensível. Colocar-se no lugar do outro era algo que fazia comumente. Detestava injustiças, mas tinha dificuldades de se levantar contra elas. Não conseguia entender como as pessoas podiam ser tão mesquinhas, como alguém podia passar sobre o outro e não respeitar o seu direito. Todavia, sem espírito de liderança, deprimia-se diante dos fatos que não aceitava, mas não via como mudá-los. Sua avó preocupava-se com a sua maturidade precoce. Queria tanto que a neta fosse como as meninas de sua idade, pois achava que a sua sensibilidade só poderia acarretar-lhe mais sofrimento.  

E a vida seguiu. Aplicada nos estudos, nunca deu trabalho para a avó. Sempre tranqüila, passou por todas as etapas escolares e ingressou na Faculdade de Pedagogia. Sem que ninguém dissesse nada, escolheu a profissão da mãe: sentia um prazer especial em trabalhar com crianças. Foi então, quando a vida parecia encaminhada, que Maria Clara conheceu Carlos. Oposto do seu temperamento, comunicativo, daquele tipo que está sempre pra cima, sempre feliz. Antes dele, ela nunca havia sequer pensado em ter alguém, mas descobriu nele algo que lhe faltava, e o envolvimento foi inevitável. Desde o começo, Dona Débora olhou para aquele relacionamento com desconfiança. Não queria que a neta sofresse, mas sabia que não poderia tê-la para sempre dentro de uma redoma protetora. Estava convencida de que Maria Clara precisava conhecer a vida – e realmente conheceu.

Não demorou muito para que o fogo da paixão queimasse o seu interior. Descobriu a dor: ciúmes e desconfiança, sentimentos até então desconhecidos, consumiam a sua alma. Carlos gostava da vida mais do que tudo, e nunca fez questão de esconder que esse era o seu jeito. Do seu modo, ele amava Maria Clara, mas jamais passou pela sua cabeça sacrificar a sua liberdade por ela. Assumir responsabilidades, definitivamente, não era com ele. Na sua ótica, a vida era uma festa, por isso vivia num estado permanente de celebração. Não era assim que ela pensava, sua vida era certinha, em tudo organizada – detestava o improviso. Se não fosse Carlos, sua trajetória seria totalmente previsível, era assim que gostava, dessa forma sentia-se protegida. Mas não foi do jeito que ela queria. De todas as formas, tentou arrancar a paixão que queimava no seu peito, buscou ser racional, certamente, era o melhor que poderia fazer. Mas na guerra da paixão contra a razão, a prudência perdeu feio. Entregou-se por inteira, pagou pra ver, arriscou-se num mergulho insano, pulou do despenhadeiro numa noite escura a fim de testar as suas asas.

O voo foi curto e, então, logo veio a queda. Reeditando o poeta, “foi eterno enquanto durou”. Além de um coração machucado, no juntar dos cacos, descobriu que estava grávida. Não disse nada. Percebeu que Carlos era escravo da sua própria liberdade, não usaria a gravidez para coagi-lo. Seguiu em frente, mesmo sem muita cabeça para os estudos, tocou o barco. Muita força pra remar contra a correnteza, mas aprendeu a ser forte e não se entregou. Não permitiu que ninguém ficasse com pena dela, não se fez de vítima, deixou que a mulher que estava lá dentro viesse pra fora. Estava no sétimo mês de gravidez quando se formou. Com um barrigão enorme, homenageou a avó na hora que recebeu o diploma – sentada na plateia, Dona Débora se desmanchou em lágrimas. 

Tiago chegou numa manhã de domingo. O céu estava totalmente azul, não havia nuvem alguma. Veio como um presente de Deus. O nome foi uma homenagem ao pai que ela não conhecera, e por isso fez questão de acrescentar “Neto” no final. Uma criança muda os ares de uma casa, e essa foi a grande missão de Tiago, realmente tudo mudou com a sua chegada. Depois de um tempo, Maria Clara até achou graça quando comparou as dores do seu relacionamento com Carlos com a alegria que o filho trouxe para a sua vida. A vida se reorganizou e pouco tempo depois do nascimento de Tiago, Maria Clara já estava lecionando na escola onde fora estagiária. Ainda que a jornada fosse dura, amava o que fazia. O filho ficava com a bisavó que, mesmo com a idade avançada, com prazer cuidava do “presentinho de Deus”, como ela gostava de chamar o bisneto.

Como era do seu feitio, a vida fluiu dentro da normalidade, bem ao seu gosto. Esse era o seu jeito, quanto mais previsível, melhor. Mas não foi assim, o destino havia preparado uma surpresa para ela.  E quando a alma se sentia segura, longe da dor, conheceu Fernando, irmão de uma colega de trabalho. Depois que Carlos saiu da sua vida, não permitiu que seu coração sonhasse mais, ela sabia o quanto aquela paixão lhe custara, não estava disposta a mais um voo sem asas. Mas aconteceu, tentou fugir, não conseguiu. Ainda que ele fosse tão diferente do pai do seu filho, o medo de um novo fracasso assaltou o seu interior. Gentil, com a paciência de quem ama, Fernando insistiu na ideia. Ele também vinha de um recente tropeço, acabara de se divorciar, mas viu em Maria Clara o que sempre procurou. Ainda que tudo fosse tão ressente, não teve dúvida de que o caminho era aquele, por isso não permitiu que a oportunidade escapasse. O tempo foi parceiro, o receio de um novo revés cedeu lugar à confiança e Maria Clara disse sim, sem medo de se arrepender. Foi num sábado de sol, com o céu carregado no azul, igual ao dia em que Tiago nasceu, que Maria Clara e Fernando se casaram, foi o “presentinho de Deus” quem levou as alianças. Dona Débora não conseguia se conter de tanta alegria, sentia-se recompensada pela felicidade da neta.

Tempos depois, num dia de semana, logo cedo, Maria Clara e Fernando passaram na casa de Dona Débora para deixar com ela o bisneto Tiago. Saíram em direção à serra gaúcha. Fernando tinha algumas coisas para resolver por lá, nada muito complicado que não pudesse ser solucionado pela manhã. Naquele dia, ela não lecionaria, e assim poderia acompanhar o marido na breve viagem. Aproveitariam para almoçar juntos e retornariam no final do dia. Assim fizeram, conforme o planejado. Foi um dia maravilhoso, o friozinho da serra num dia de sol. E na volta... bem... na volta eles passaram pela curva onde os pais de Maria Clara morreram e seguiram em frente.

Reflexos de Mim Mesmo

A escuridão da noite
Vencida foi
Luz entrou pela janela
Iluminando o interior
Romperam-se trevas que me assolavam
A vidraça clara
Espelho se fez 
E na janela
[feito alma exposta]
Refletida vi,
A minha face
No brilho do vidro me percebi,
No conteúdo iluminado
Contemplei imperfeições 
Mas na luz que me invadiu 
Pondo fim à escuridão,
Achei graça e misericórdia