quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Maria Clara


Não havia ainda completado um ano de vida quando a tragédia bateu à porta. Era uma viagem muito curta que não justificava levar o bebê. Sairiam logo cedo e, certamente, antes de escurecer já estariam de volta. Naquele dia, a mãe, professora da rede pública, não lecionaria, o que proporcionou acompanhar o marido numa breve viagem de negócios à serra gaúcha. Nos últimos tempos, com a chegada de Maria Clara e a correria costumeira de seu pai, pouco tempo tinham pra ficar juntos. Por isso, ela cedeu diante da insistência do marido em acompanhá-lo, e unir o útil ao agradável. Ele resolveria tudo na parte da manhã, e então poderiam almoçar juntos, aproveitar um pouco o friozinho da serra e voltar antes do sol se por. Assim fizeram, conforme o planejado. Mas na volta... a curva, o caminhão, a capotagem, a tragédia, e Maria Clara sem a mínima consciência da vida, perdeu de uma só vez os seus pais. Na manhã da viagem, ela foi entregue à avó. Ninguém esperava que fosse pra sempre, mas foi. Quem poderia imaginar que aquela seria a última vez que mamaria no peito de sua mãe, e que o beijo que recebera na bochecha rosada seria o selo da despedida de seu pai – um adeus pra nunca mais.

Quando começou a falar, às vezes falava vovó, mas na falta da mãe, por instinto trocou vovó por mamãe. Essa confusão que surgiu tão cedo na sua cabeça, acompanhou Maria Clara em toda a sua trajetória. Sem a figura do pai, e substituindo a mãe pela avó, tentou encontrar a sua identidade. Não havia dentro dela nenhum tipo de revolta pelo modo como a vida se apresentou, somente um vazio, a saudade de alguém que não conhecera.

Dona Débora era uma dessas pessoas que podemos chamar de especiais. A vida lhe imprimiu as marcas das perdas. Na adolescência perdeu a mãe, e foi morar com os tios quando o pai caiu no mundo e nunca mais deu notícias. Teve que aprender a cuidar de si mesma, já que a família que lhe abrira as portas não tinha muitos recursos. Casou-se ainda muito jovem, e precocemente ficou viúva com três crianças pequenas para criar. Não correu da luta, não se entregou à reclamação da má sorte, continuou vivendo. Buscou a dignidade para a sua casa. Os filhos cresceram e corresponderam à expectativa do sacrifício que fizera para que se tornassem alguém na vida. Por fim, perdeu a filha caçula, na flor da idade, e como um presente que pareceu recompensar a dor, recebeu Maria Clara para criar.

Talvez por saber o que é sofrer, amou a neta com todas as suas forças, e se desdobrou para supri-la em tudo. Achava que o destino tinha sido duro demais, e não ter a oportunidade de conhecer os pais já era sofrimento bastante. Por isso, queria proteger a neta de qualquer coisa que lhe ameaçasse. Sempre ofereceu o que tinha de melhor. Ainda que não quisesse deixar transparecer que o seu afeto era um esforço para amenizar o suposto sofrimento de Maria Clara, o seu comportamento excessivamente misericordioso em relação à neta não deixava dúvida. Estava sempre disposta a entendê-la, mesmo os deslizes mais grosseiros contavam com o olhar contemporizador da avó. Dona Débora nunca escondeu a verdadeira história, ainda que lhe tenha sido doloroso falar do acidente que vitimou os seus pais, ela superou a dor e não teve medo de contar a verdade.  Ela sempre se apresentou como avó, mas não disfarçava o prazer que sentia quando a neta lhe chamava de mãe.

Maria Clara desde cedo foi uma menina tranquila, isso fazia parte da sua personalidade. Seu olhar transmitia tristeza, mas havia nela uma atraente doçura, principalmente na voz. Ainda muito pequena, quando começou a ser alfabetizada, já surpreendia a todos com frases e observações que não correspondiam à criança da sua idade. Certa feita, Dona Débora, irritada com o atraso da reforma da casa, desatou a reclamar com os pedreiros que tentavam explicar a razão da demora, a discussão foi esquentando em função da inflexibilidade da dona da casa. De repente, sua alma se quebrantou, quando a neta puxando-lhe pelo vestido, suavemente disse: – “Calma, mamãe, vai dar tudo certo. São apenas mais alguns dias e já acaba”. Ela teve que se segurar para não chorar, abaixou-se e deu um beijo na menina e concordou dizendo: – “É verdade, você tem razão, são mais alguns dias e já acaba”.

Não foram muitas as bonecas que teve. Não porque a avó não quisesse comprá-las. A verdade é que Maria Clara nunca se interessou muito por elas. Gostava mais dos livros, principalmente dos que tinham figuras que alimentavam a sua imaginação. Em cada uma delas uma viagem por um mundo de fantasia que criava facilmente e lhe proporcionava enorme prazer. Na adolescência sua alma mostrou-se ainda mais sensível. Colocar-se no lugar do outro era algo que fazia comumente. Detestava injustiças, mas tinha dificuldades de se levantar contra elas. Não conseguia entender como as pessoas podiam ser tão mesquinhas, como alguém podia passar sobre o outro e não respeitar o seu direito. Todavia, sem espírito de liderança, deprimia-se diante dos fatos que não aceitava, mas não via como mudá-los. Sua avó preocupava-se com a sua maturidade precoce. Queria tanto que a neta fosse como as meninas de sua idade, pois achava que a sua sensibilidade só poderia acarretar-lhe mais sofrimento.  

E a vida seguiu. Aplicada nos estudos, nunca deu trabalho para a avó. Sempre tranqüila, passou por todas as etapas escolares e ingressou na Faculdade de Pedagogia. Sem que ninguém dissesse nada, escolheu a profissão da mãe: sentia um prazer especial em trabalhar com crianças. Foi então, quando a vida parecia encaminhada, que Maria Clara conheceu Carlos. Oposto do seu temperamento, comunicativo, daquele tipo que está sempre pra cima, sempre feliz. Antes dele, ela nunca havia sequer pensado em ter alguém, mas descobriu nele algo que lhe faltava, e o envolvimento foi inevitável. Desde o começo, Dona Débora olhou para aquele relacionamento com desconfiança. Não queria que a neta sofresse, mas sabia que não poderia tê-la para sempre dentro de uma redoma protetora. Estava convencida de que Maria Clara precisava conhecer a vida – e realmente conheceu.

Não demorou muito para que o fogo da paixão queimasse o seu interior. Descobriu a dor: ciúmes e desconfiança, sentimentos até então desconhecidos, consumiam a sua alma. Carlos gostava da vida mais do que tudo, e nunca fez questão de esconder que esse era o seu jeito. Do seu modo, ele amava Maria Clara, mas jamais passou pela sua cabeça sacrificar a sua liberdade por ela. Assumir responsabilidades, definitivamente, não era com ele. Na sua ótica, a vida era uma festa, por isso vivia num estado permanente de celebração. Não era assim que ela pensava, sua vida era certinha, em tudo organizada – detestava o improviso. Se não fosse Carlos, sua trajetória seria totalmente previsível, era assim que gostava, dessa forma sentia-se protegida. Mas não foi do jeito que ela queria. De todas as formas, tentou arrancar a paixão que queimava no seu peito, buscou ser racional, certamente, era o melhor que poderia fazer. Mas na guerra da paixão contra a razão, a prudência perdeu feio. Entregou-se por inteira, pagou pra ver, arriscou-se num mergulho insano, pulou do despenhadeiro numa noite escura a fim de testar as suas asas.

O voo foi curto e, então, logo veio a queda. Reeditando o poeta, “foi eterno enquanto durou”. Além de um coração machucado, no juntar dos cacos, descobriu que estava grávida. Não disse nada. Percebeu que Carlos era escravo da sua própria liberdade, não usaria a gravidez para coagi-lo. Seguiu em frente, mesmo sem muita cabeça para os estudos, tocou o barco. Muita força pra remar contra a correnteza, mas aprendeu a ser forte e não se entregou. Não permitiu que ninguém ficasse com pena dela, não se fez de vítima, deixou que a mulher que estava lá dentro viesse pra fora. Estava no sétimo mês de gravidez quando se formou. Com um barrigão enorme, homenageou a avó na hora que recebeu o diploma – sentada na plateia, Dona Débora se desmanchou em lágrimas. 

Tiago chegou numa manhã de domingo. O céu estava totalmente azul, não havia nuvem alguma. Veio como um presente de Deus. O nome foi uma homenagem ao pai que ela não conhecera, e por isso fez questão de acrescentar “Neto” no final. Uma criança muda os ares de uma casa, e essa foi a grande missão de Tiago, realmente tudo mudou com a sua chegada. Depois de um tempo, Maria Clara até achou graça quando comparou as dores do seu relacionamento com Carlos com a alegria que o filho trouxe para a sua vida. A vida se reorganizou e pouco tempo depois do nascimento de Tiago, Maria Clara já estava lecionando na escola onde fora estagiária. Ainda que a jornada fosse dura, amava o que fazia. O filho ficava com a bisavó que, mesmo com a idade avançada, com prazer cuidava do “presentinho de Deus”, como ela gostava de chamar o bisneto.

Como era do seu feitio, a vida fluiu dentro da normalidade, bem ao seu gosto. Esse era o seu jeito, quanto mais previsível, melhor. Mas não foi assim, o destino havia preparado uma surpresa para ela.  E quando a alma se sentia segura, longe da dor, conheceu Fernando, irmão de uma colega de trabalho. Depois que Carlos saiu da sua vida, não permitiu que seu coração sonhasse mais, ela sabia o quanto aquela paixão lhe custara, não estava disposta a mais um voo sem asas. Mas aconteceu, tentou fugir, não conseguiu. Ainda que ele fosse tão diferente do pai do seu filho, o medo de um novo fracasso assaltou o seu interior. Gentil, com a paciência de quem ama, Fernando insistiu na ideia. Ele também vinha de um recente tropeço, acabara de se divorciar, mas viu em Maria Clara o que sempre procurou. Ainda que tudo fosse tão ressente, não teve dúvida de que o caminho era aquele, por isso não permitiu que a oportunidade escapasse. O tempo foi parceiro, o receio de um novo revés cedeu lugar à confiança e Maria Clara disse sim, sem medo de se arrepender. Foi num sábado de sol, com o céu carregado no azul, igual ao dia em que Tiago nasceu, que Maria Clara e Fernando se casaram, foi o “presentinho de Deus” quem levou as alianças. Dona Débora não conseguia se conter de tanta alegria, sentia-se recompensada pela felicidade da neta.

Tempos depois, num dia de semana, logo cedo, Maria Clara e Fernando passaram na casa de Dona Débora para deixar com ela o bisneto Tiago. Saíram em direção à serra gaúcha. Fernando tinha algumas coisas para resolver por lá, nada muito complicado que não pudesse ser solucionado pela manhã. Naquele dia, ela não lecionaria, e assim poderia acompanhar o marido na breve viagem. Aproveitariam para almoçar juntos e retornariam no final do dia. Assim fizeram, conforme o planejado. Foi um dia maravilhoso, o friozinho da serra num dia de sol. E na volta... bem... na volta eles passaram pela curva onde os pais de Maria Clara morreram e seguiram em frente.

2 comentários:

  1. Apóstolo, que história fantástica! Dá pra tirar tanta lição disso... só me diz - é verídico ou construção sua? Shalom!

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