quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O Verbo que Difere

Se a palavra é o que diz ser,
verdade é.
Se quer parecer o que não é,
mentira é.
A palavra fere, mas também cura.
Confere a quem diz e escreve
o poder da verve.
Ferve, côa e apura
o coração de quem se atreve
a se expor como quem serve
à palavra,
que mata e ressuscita,
faz a alma ficar bonita,
quando a noite vira dia
e a dor, poesia.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Não queria falar sobre isso

Ah! Saudade!
Intruso sentimento que me invade.
Que não pede licença.
Que me faz lembrar quando não quero.
Que machuca ao afirmar que não voltará o que espero.
Prepotente dor,
que chega adonando-se do hoje,
decretando que o ontem nunca mais,
sem respeitar o coração que sangra,
por não ter o que um dia foi.

Ah! Saudade!
Maldade que o tempo comigo faz.
Devoradora de sonhos,
inspiradora de versos tristonhos.
Que prefere a escuridão da noite.
Que pretere a luz do dia.
Que me assalta a alma, por pura covardia,
pois não tenho como contra ti lutar.
Herança de um legado triste: saber que já não existe.
E o que foi não será jamais.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Amor aos Cacos

Profanou o original. Quis juntar os cacos, colar pedaço a pedaço – pacientemente –, como habilidoso restaurador. Foi então que percebeu a sua falta de sensibilidade, quando, novamente, deixou cair, e os pedaços se multiplicaram. Na dor, descobriu que o original profanado não poderia ser recuperado. Largou os cacos no chão e o tempo fez virar pó.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Cromático

Percebendo o sinal verde, ele avançou. Papo vai, papo vem, ambos se derretendo publicamente, tudo bem encaminhado – tudo azul. Mas aí, a coisa ficou preta quando a esposa dele entrou pela porta do bar, interrompendo o colorido “happy hour”. Ele ficou branco de susto, ela, roxa de raiva. Com um sorriso amarelo, apresentou sua mulher à colega de trabalho, que, vermelha de vergonha, se desculpou alegando não saber que ele era casado. E foi assim que aquele mundo cor-de-rosa começou a desabar.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Primeiro Eu

Não queira que os outros queiram o que você não quer.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Plateia

Olhou o palco da vida sem coragem de subir nele. Escolheu o conforto da plateia com o medo de se expor. Abriu mão de ser protagonista da sua própria história; nem mesmo coadjuvante foi. E no final do espetáculo, quando a cortina se fechou, com um sorriso amarelado no rosto, só lhe restou aplaudir.

domingo, 20 de setembro de 2015

Dois em Um

Amo ser nós dois
Amo o ontem
Amo o agora
Certo que amarei o depois
Pois, com você, 
como não ser assim?
Me vejo em você
Vejo você em mim
Vejo dois 
Mas vejo um
[fusão de alma e coração]

Com você,
amo ser um 
O gosto de ver no seu rosto
aquilo que sou
E no brilho dos seus olhos
o que fizemos 
Sem você, não  serei mais eu
Pois quanto mais lhe tenho
menos tenho de mim
Me acho e desapareço,
me refaço e sigo

sábado, 19 de setembro de 2015

Resiliente

Cair e levantar faz parte do jogo. Derrotado só está aquele que parou de lutar.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Na Real

Sonhadora, pensou que se casaria com o príncipe encantado. Realista, descobriu que não se casara com o príncipe, mas com o cavalo do príncipe.

Tempo

Na infância, sonhava ser o Zorro. Cresceu, virou Sargento Garcia.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Histórias da Minha Avó


Minha avó já se foi há algum tempo deixando muita saudade. Mas, não deixou só saudade, deixou também ensinos e princípios que fazem parte da minha formação e me influenciam até hoje. Além desse precioso legado, vovó também deixou muitas histórias. Outro dia me lembrei de uma delas e comecei a rir sozinho. Não tenho a mesma maestria da minha saudosa avó, mas vou me arriscar a reproduzi-la aqui nesse espaço.
No tempo que ainda existiam os bondes, tinha-se que tomar muito cuidado com os punguistas, aqueles indivíduos que se aproveitam da aglomeração para furtar, o popular batedor de carteira. Tudo era feito com muito jeito, nada parecido com a violência dos nossos dias, até os assaltos eram mais românticos. Os famosos “dedos leves” andavam bem vestidos e usavam da sua “arte” para surrupiar os mais distraídos. E quando o bonde estava cheio, as oportunidades aumentavam e eles iam a campo.
Vovó sempre foi muito desconfiada, estava sempre atenta a tudo. Mas um dia, ao chegar em casa, constatou que fora roubada. A infeliz surpresa, sobretudo, a deixou irritada: “quando foi que o furto se deu? ” – perguntava indignada com a sua desatenção. Dona Alice detestava fazer papel de trouxa, não era nem pelos poucos tostões que o amigo do alheio levara da sua bolsa, mas pelo seu descuido, pela horrível sensação de que fora passada para trás. A idéia de que alguém estaria rindo dela naquela hora, fazia-lhe ferver de raiva.
Foi aí que teve a inspiração de dar o troco. Na próxima vez que precisou ir ao centro da cidade num horário mais tumultuado, vovó pegou uma das suas bolsas velhas e encheu de esterco de vaca. Fez questão de colher o produto recém-saído das entranhas do animal, por estar ainda bem úmido. Colocou a carteira dentro da sombrinha e saiu em direção à parada do bonde, com a armadilha preparada. O bonde estava lotado, mas um gentil cavalheiro cedeu-lhe o lugar. Obedecendo a estratégia que ela mesma elaborara, uns cinco minutos antes de saltar, colocou-se em pé com a bolsa propositalmente entreaberta. Comprimida entre os demais passageiros foi se dirigindo a uma das saídas. O bonde parou e vovó desceu, sem notar nada de diferente, até que, ao se preparar para atravessar a avenida, percebeu que o gentil cavalheiro que cedera o seu lugar no início da viagem, já estava do outro lado da avenida limpando a mão com um lenço e fulminando minha avó com os olhos. Ela resolveu não atravessar a avenida, deu meia volta e entrou numa loja de tecidos com ar de vitoriosa.

Fim da Linha

A bala nas costas ceifou o menino com uma vida inteira pela frente.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Labirinto

Compartimentos da alma:
estranhos lugares que não conhece,
susto do espelho que mostrou
o que não queria ver.

No imenso labirinto,
o instinto do sobreviver
– do viver sobre, do apesar de tudo.
No silêncio surdo,
alma se cala,
mas não se entrega.

Perdido por dentro,
busca saída.
Na esquina que se aproxima,
enxerga a porta.
Espreita pela fresta:
vê na réstia de luz
a sombra da cruz que o espera.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Restauração

“Pedro entristeceu-se por ele lhe ter dito, pela terceira vez: Tu me amas? E respondeu-lhe: Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo”. (Jo 21:17)

Lá estavam eles, assentados lado a lado junto ao braseiro improvisado, onde os peixes assavam. A situação era constrangedora. Ele não era nem sombra daquele homem impetuoso dos últimos três anos. Aquele que liderava as conversas, que determinava os assuntos do grupo, que estava sempre pronto a responder às perguntas do Mestre. Dessa vez é diferente, ele não consegue quebrar o silêncio, nem ousa se explicar. Limita-se a olhar o fogo que está à sua frente, onde a refeição está sendo preparada. Fogo que o remete às lembranças recentes. Há poucos dias ele estava em frente ao fogo no pátio da casa do sumo sacerdote, assentado com pecadores que aguardavam a decisão do sinédrio sobre o que fariam com o Senhor. Fogo que testemunhou a sua tríplice negação, conforme o próprio Mestre lhe avisara que faria. O galo cantou e a sua mente foi acionada. Ao se lembrar do que fora dito por Jesus – “Me negarás três vezes antes que o galo cante” – desaba num choro amargo.   
O Mestre foi condenado, sofreu nas mãos dos pecadores. O Mestre morreu, mas também ressuscitou e, agora, está ali assentado ao seu lado em frente ao Mar da Galileia, palco de tantos milagres. Mas o que dizer? O que falar numa situação como aquela? Consciente da sua limitação, aquele homem outrora impulsivo, permanece em silêncio fitando firmemente o fogo. Então o Mestre rompe o silêncio e pergunta:
“Simão, filho de João, amas-me mais do que estes outros? (Jo 21:16)
Ele responde que sim. Jesus pergunta novamente. Ele repete a resposta. Mas Jesus insiste e faz a mesma pergunta pela terceira vez, e Pedro se entristece, e responde diferente:
“Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo”. (Jo 21:17)
Eis o ponto principal. Ele sabe todas as coisas. Conhece todas as nossas limitações, as nossas debilidades, medos e fracassos. Mas o que interessa para Ele é se de fato o amamos, se estamos dispostos em nome desse amor cuidar das suas ovelhas, apascentar o seu rebanho, pastorear os pequeninos. Ainda que estejamos desapontados com o que fizemos, ainda que não tenhamos nem coragem de romper o silêncio, de nos acharmos incapazes, de não merecermos tamanha graça, a pergunta que o Senhor sempre fará é essa:
“Tu me amas?”
Se a resposta for sim, Ele vai dizer: Siga em frente, conto contigo no meu projeto. Portanto, se você está decepcionado consigo mesmo, diga sim, Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo.

sábado, 12 de setembro de 2015

Sobre Planos

“Os planos do diligente tendem à abundância, mas a pressa excessiva, à pobreza”. Pv 21:5

Viver por tentativas, sem planejar e desenvolver meios de alcançar objetivos, não é o melhor caminho. Não é sábio fazer da vida uma roleta. Sair à luta de qualquer jeito para ver o que vai dar, algumas vezes pode até mesmo dar certo – alguém já disse que até um relógio quebrado acerta a hora duas vezes por dia. Porém, planejar, se aconselhar e buscar direção em Deus, antes de sair por aí atirando para todos os lados, é fundamental para colher bons resultados.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

De Volta à Vida

Depois da tempestade que lhe abatera, assentou-se sobre as sobras, na tentativa de preservar os restos. A devastação das suas estruturas roubou-lhe a coragem. Pensou que o melhor a fazer seria recolher-se, sair de circulação e trancar-se por dentro. Tornou-se súdito do medo. Até que um dia percebeu a insistência do sol que teimosamente tentava entrar por um canto da janela, lacrada por pesadas cortinas que bloqueavam a luz.

A cena fez compreender a metáfora da sua alma, num ímpeto abriu as cortinas e deixou que o sol inundasse o interior do quarto. O gesto lhe devolveu o ânimo, as “cortinas” do seu ser foram abertas e a luz que em todo tempo esteve do lado de fora querendo entrar não encontrou mais resistência e desfez a escuridão. Destemido, liberto de si mesmo, girou a chave, destrancou a porta e saiu da clausura, recuperou o sorriso e voltou a viver.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Culpa


Estava ali, mas como gostaria de não estar. Desconfortável. Nitidamente constrangido com o que fizera, buscava dentro de si uma justificativa, uma desculpa convincente, mas os argumentos óbvios da sua alma não convenciam nem a ele mesmo, por isso não disse nada, esperando que ela quebrasse o silêncio.
Olhava para si mesmo, e no seu autoconfronto julgara-se sem autoridade para propor qualquer coisa. Como criança que fez arte, assim estava, esperando a sua sentença. Exposto, entregue, sem defesa.
De cabeça baixa, fixou o olhar na mancha do carpete, e pensou:
– “O que será que derramaram ali? Parece café”.
Mais uma tentativa frustrada de fugir dos pensamentos que consumiam o seu interior. Queria se distrair, mas não teve jeito, sua mente voltou a pensar no que não queria, por mais que se esforçasse era incapaz de desviar-se do assunto que mentalmente se desenrolava, pois o que imperava, na pequena sala onde estavam, era o silêncio.
Silêncio ensurdecedor. Ninguém falava, mas as vozes do íntimo reverberavam dentro dele como barulho de grande cachoeira. Pensamento acelerado, cobrança que não cessa, voz que se repete, insistente:
–“O que foi que eu fiz? O que foi que eu fiz?”
– “Ah, se eu tivesse uma nova oportunidade, uma única chance! Certamente faria diferente. Não seria mais do jeito que foi; eu sei que não seria! ” – gritava ele por dentro, sem abrir a boca, sem emitir som.
E o silêncio prosseguiu. Ele não ousou dizer nada, e percebeu que o silêncio dela era proposital. Uma estratégia de castigo – crueldade do credor diante daquele que lhe deve. E assim, ela fechou a revista que folheara durante todo o tempo, disse um gelado “boa noite” saindo em direção ao quarto, enquanto ele permaneceu no porão da tortura.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

De repente, Uma voz!

“Mas Jesus imediatamente lhes disse: Tende bom ânimo! Sou eu. Não temais!” (Mt 14:27)

O vento forte pôs em risco a embarcação. O cenário era tenebroso, as ondas vinham de encontro ao barco – frágil –, insuficiente para suportar aquela tormenta. Lutando pela vida, lá estavam doze homens – discípulos do Mestre Jesus – apavorados, sem qualquer perspectiva de salvação: o naufrágio era iminente. (Mt 14:22-33)
Na escuridão da noite, tomados pelo medo de perecer, o pavor aumentou quando ao longe viram um vulto se aproximando e julgaram ser um fantasma. A primeira impressão é que o fim chegara, mas, de repente, uma voz soou firme e familiar:
– “Tende bom ânimo! Sou eu; não temais!”
Um fato novo. O que parecia ser o ponto final transformou-se em fonte de esperança. A voz fez renascer o ânimo, a falta de prisma deu lugar à ousadia. Então, Pedro pede para caminhar por sobre as águas como um sinal. Prontamente o Senhor ordena:
– “Vem”.
O discípulo passa do desespero à confiança e milagrosamente flutua sobre as águas, mergulhado no sobrenatural. A luta pela vida é substituída pelo triunfo. Como explicar isso? Minutos atrás, ele lutava com os seus amigos para não ser engolido pelo mar, agora caminha, vitoriosamente, sobre as mesmas águas ameaçadoras.
Mas a força dos ventos desperta no seu íntimo a dúvida, e o discípulo começa a afundar. Ah, a dúvida! Por que ela tem que aparecer quando começamos a caminhar no sobrenatural? Vulnerável, novamente grita por socorro. O Mestre o pega pela mão, sem perder a oportunidade de nos ensinar:
– “Homem de pequena fé. Por que duvidaste?”
E assim, o sobrenatural é interrompido. O Mestre entra no barco com o discípulo e o vento cessa, e tudo volta ao normal. Do jeito que a gente gosta: mar tranquilo, sem grandes ondas, sem ventos ameaçadores. Todavia, sem oportunidades para que o sobrenatural tome conta do natural. Sem oportunidades para que a Glória do Senhor se manifeste.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Passado

Passado que passa diante dos olhos,
é passado que não passa.
Por mim passa
a passos lentos,
despertando a alma,
acendendo luzes.

Traz de volta o que não volta:
açoita.
Passado que não passa,
só passa diante de mim,
assim,
feito presente.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Passado, Presente e Futuro

"A transformação não resulta da briga com o passado, mas da diligência na formação do novo. Se os meus olhos estão presos no que passou, é porque o passado não passou – logo, presente e futuro se perderam”.